segunda-feira, abril 9

Da eternidade




Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim. 

Medo da Eternidade - Clarice Lispector


 

sexta-feira, abril 6

Os coelhinhos daqui



Páscoa é sempre motivo para muita emoção e muita alegria por aqui. São os amigos, a família (que me enche o coração), todos os que queremos bem... É o amor, a troca de votos e, claro, os ovos de chocolate, bombons e a espera pelo coelhinho, na ansiedade inocente das crianças.

De repente a vida parece nova e abençoada, de um modo mais simples e muito mais bonito.
É, acho mesmo emocionante essa época, toda a simbologia que ela carrega e tudo o que incita nas pessoas. 

Este ano a Sofia trouxe da escola uma mensagem toda fofa, escrita num cartão-ovo feito por ela. Amei! Fui logo pensando que estava crescida minha filha; nada de fantasias de coelha, nada de rostinho pintado. Mas ainda tem o caçula -  batatinha-quente da mamãe, como ele mesmo se intitula - que desta vez, já chegou em casa com seus pirulitos de chocolate todos mordidos (rs): Estavam derretendo, mamãe! - justificou todo lambuzado.
A roupa de coelho tirou sem me dar tempo para maiores paparicos, beijos ou apertões... Disse estar muito calor, que estava muito suado.
Ok, dei razão... afinal é Páscoa. Mais uma, aliás ( o tempo voou). 
E os filhos mocinhos.
É a vida que se renova.

sábado, março 17

Coisas da vida. E só


Há uns dias perdi uma prima. Nosso contato era pouco e mesmo assim senti; fiquei com os faróis baixos, como aprendi dizer com meu pai. Mas aproveitei para pensar  nas minhas coisas e, especialmente, nas pessoas que amo... Questionei a vida, me perguntei se estaria tocando direitinho meu barco nesta imensa viagem, nesta quase miragem que é nossa jornada; E claro, lembrei da minha prima, de tudo o que construiu e escreveu como legado, em como lutou seus últimos momentos e nos ensinou com delicadeza e bravura. Sim, já estava chorando... imaginando entre tudo isso, como o tempo correu veloz.

Aí parei um pouquinho, porque acho péssimo prolongar horas tristes. 

É,  sigo a receita de parar, buscar uma outra sintonia e somente depois, com mais equilíbrio tento compreender questões como a morte, que não são fáceis, tampouco agradáveis. 
Meio loucura? Meio fuga?  Não sei... O fato é que nestas pausas, nesta respiração mais profunda, reorganizo meu eu e sinto meu racional rearranjado, o que é fundamental para continuar tocando o  tal barco, com filhos, marido, projetos, vaidade e toda aquela  parafernália maravilhosa que mulher carrega. Tudo dentro. Tudo a salvo. 

Sinto que pra pensar e falar da vida a linha é mesmo essa... Com algumas paradas, sem muitas conclusões logo de cara e muita coisa em stand by, pelo simples motivo de que certos acertos, vêm somente com o tempo, com as voltas e a sabedoria dele.
Algumas vezes levo dias para retomar um problema, em outras cochilo, ou tomo um chá e enxergo melhor o que parecia  enigmático...
Depois busco alegria, que é fundamental; Para nos alimentar, e trazer otimismo e esperança para construírmos tudo o que os sonhos assopram nos ouvidos... sem pensar em desistir. Nem arrefecer.

Aí vamos levando e a roda viva vai girando... cheia de vontades, cheia de surpresas. Tudo bem simples (deveria ser...) como resume a Danuza Leão em seu  último livro, nos ajudando a quebrar regras e a nos libertar do que pode ser escravizante para a alma.

quarta-feira, fevereiro 22

Ode to MY FAMILY


Não  é a Dolores Mary Eileen, vocalista do Cramberries, ou para falar dela, ou sobre a música. Apenas sobre família e sobre mim; e medos e loucuras... mas só um pouquinho.

Minha mãe costuma dizer que sou exagerada. Pra tudo. E acho que das poucas coisas que ela me disse, nisso infelizmente tem razão... daquelas coisas sábias de mãe, que não gostamos muito de concordar.

Acho que exagero um pouco. Pensando, fazendo (algumas muitas coisas ao mesmo tempo), questionando, amando... No amor para os filhos, para o marido. Sou inteira para eles; Bem, costumo ser rs...

Dia desses conversando com a Mônica -  uma amiga linda, super novinha e que já é mãe - ouvi aquele pensamento -  que pra mim é antigo -  de que quando nascem os filhos, "nos abandonamos". Fui firme em dizer que não, que, claramente, as coisas mudam, de forma inevitável, mas que devemos separar um tempo pra nós (aliás,  este foi um dos primeiros conselhos que ouvi dos meus médicos, ginecologista e terapeuta).

E na questão ... Estar inteiro para uma  ou outra tarefa ( de preferência sem exageros rs), tenha ela o cunho que tiver, temos mesmo que estar bem conosco.  Demorei, não para entender isso, mas para conseguir praticar sem (muita) culpa. 
O meu  melhor, melhor dedico a eles quando também tenho meu espaço, costumo dizer e carregar sempre comigo. Quase como mantra.

Se é difícil, extremamente complicado e exaustivo dedicar tempo a mim mesma sem me sentir a pior das pecadoras? Se ouço aquelas " bem-vindas" opiniões de terceiros, altamente críticas, completamente... desnecessárias...? Touché!   
Mas percebi que nossos melhores momentos - meus e dos filhotes - , os mais alegres, mais inteiros, acontecem quando aceito que também posso e mereço muitas outras paixões, além da delícia de conviver com eles, de ensiná-los e cuidá-los e mais tantas outras coisas que desfrutamos desta... insidiosa seara materna. 

Hoje levo  os dias com mais tranquilidade e desconfio ser dos presentes mágicos do tempo, do que ele traz, do que ele vai curando. Vou seguindo assim, tropeçando e aprendendo; e até as conversas com minha sogra tenho aproveitado e gostado. Muito.
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