quinta-feira, abril 12

Meus filmes (tipo drama)


Tem horas que "sonho" acordada. Ou fico, enquanto junto a bagunça do Theo e da Sofia, organizando (de cabeça), os meus projetos... Turbilhão de pensamentos, várias pulgas, como disse, descontraidamente, uma amiga blogueira.
Da vontade de parar, voltar lá no número um, no começo da amarelinha e jogar a pedra com mais fé, pra acertar em cheio, de primeira, o alvo e gastar menos tempo com algumas bobagens, com grilos...
Mulher tem mil coisas na cabeça. Sempre... mulher que é mãe, mais ainda. Com isso são 1001 inspirações, vontades e planos. E, sim, preocupações. É a saúde, o marido, carreira, filhos, um curso novo, uma bolsa nova, corpo,  espírito...

Sofia e Theo estão numa fase nova pra mim; são mais  exigentes  quanto  aos lugares  que querem ir, por  exemplo (já? Sim, já...), às programações dos finais de semana (pois é, verdade), com o que vai ocupá-los de um modo geral. Fazem cara feia, querem exigir... E o caçula imita o mais velho.  Enfim, tudo aquilo que já fizemos, que ouvíamos de nossas mães e avós, mas que se transforma em novidade quando é conosco... quando a história é com nossos filhos, adquire cara de coisa inédita - tipo nunca vi, não sei fazer.

- Mamãe, este sábado temos o aniversário do Diogo, você não se esqueceu, né? - diz a Sofia, fazendo um certo charme...  É mãe (agora acho que vou te chamar de mãe, porque mamãe é para meninos pequenos e eu já fiz seis anos....), leva a "dgente" na festa dele? - completa o Theo com aquela marra habitual.
E eu?
Penso.
Nas receitas sugeridas para educá-los, na (pouca) experiência como mãe, no que vivenciei com meus pais e, acima de tudo, nos exemplos que devo dar a eles. Nestes momentos a primeira ideia é: Não quero errar!  O desejo é de orientar, buscar as coordenadas exatas para um caminho certeiro, que conduza a cabecinha deles para fora da ansiedade, dos maus modos, do modismo... Com calma...
Eles exigem; eu vou tentando algumas manobras, contornando seus novos draminhas, as vontades excessivas, a mini ansiedade. Vou recheando os dois de amor, procurando aproveitar e sentir cada fase nova que eles adentram... montando um outro filme; E  como diz a belíssima Ana Jácomo:
"A felicidade vibra na frequência das coisas mais simples." 
Sempre, sempre!


segunda-feira, abril 9

Da eternidade




Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim. 

Medo da Eternidade - Clarice Lispector


 

sexta-feira, abril 6

Os coelhinhos daqui



Páscoa é sempre motivo para muita emoção e muita alegria por aqui. São os amigos, a família (que me enche o coração), todos os que queremos bem... É o amor, a troca de votos e, claro, os ovos de chocolate, bombons e a espera pelo coelhinho, na ansiedade inocente das crianças.

De repente a vida parece nova e abençoada, de um modo mais simples e muito mais bonito.
É, acho mesmo emocionante essa época, toda a simbologia que ela carrega e tudo o que incita nas pessoas. 

Este ano a Sofia trouxe da escola uma mensagem toda fofa, escrita num cartão-ovo feito por ela. Amei! Fui logo pensando que estava crescida minha filha; nada de fantasias de coelha, nada de rostinho pintado. Mas ainda tem o caçula -  batatinha-quente da mamãe, como ele mesmo se intitula - que desta vez, já chegou em casa com seus pirulitos de chocolate todos mordidos (rs): Estavam derretendo, mamãe! - justificou todo lambuzado.
A roupa de coelho tirou sem me dar tempo para maiores paparicos, beijos ou apertões... Disse estar muito calor, que estava muito suado.
Ok, dei razão... afinal é Páscoa. Mais uma, aliás ( o tempo voou). 
E os filhos mocinhos.
É a vida que se renova.

sábado, março 17

Coisas da vida. E só


Há uns dias perdi uma prima. Nosso contato era pouco e mesmo assim senti; fiquei com os faróis baixos, como aprendi dizer com meu pai. Mas aproveitei para pensar  nas minhas coisas e, especialmente, nas pessoas que amo... Questionei a vida, me perguntei se estaria tocando direitinho meu barco nesta imensa viagem, nesta quase miragem que é nossa jornada; E claro, lembrei da minha prima, de tudo o que construiu e escreveu como legado, em como lutou seus últimos momentos e nos ensinou com delicadeza e bravura. Sim, já estava chorando... imaginando entre tudo isso, como o tempo correu veloz.

Aí parei um pouquinho, porque acho péssimo prolongar horas tristes. 

É,  sigo a receita de parar, buscar uma outra sintonia e somente depois, com mais equilíbrio tento compreender questões como a morte, que não são fáceis, tampouco agradáveis. 
Meio loucura? Meio fuga?  Não sei... O fato é que nestas pausas, nesta respiração mais profunda, reorganizo meu eu e sinto meu racional rearranjado, o que é fundamental para continuar tocando o  tal barco, com filhos, marido, projetos, vaidade e toda aquela  parafernália maravilhosa que mulher carrega. Tudo dentro. Tudo a salvo. 

Sinto que pra pensar e falar da vida a linha é mesmo essa... Com algumas paradas, sem muitas conclusões logo de cara e muita coisa em stand by, pelo simples motivo de que certos acertos, vêm somente com o tempo, com as voltas e a sabedoria dele.
Algumas vezes levo dias para retomar um problema, em outras cochilo, ou tomo um chá e enxergo melhor o que parecia  enigmático...
Depois busco alegria, que é fundamental; Para nos alimentar, e trazer otimismo e esperança para construírmos tudo o que os sonhos assopram nos ouvidos... sem pensar em desistir. Nem arrefecer.

Aí vamos levando e a roda viva vai girando... cheia de vontades, cheia de surpresas. Tudo bem simples (deveria ser...) como resume a Danuza Leão em seu  último livro, nos ajudando a quebrar regras e a nos libertar do que pode ser escravizante para a alma.

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